O Douro revela-se de forma plena quando se caminha devagar pelas suas vinhas e se deixa o olhar perder entre socalcos e rios que brilham ao sol. Em três dias, é possível atravessar a região com todos os sentidos atentos: provar, cheirar, tocar e ouvir, e sentir a história do vinho a cada passo. É este o convite da nossa rota: uma experiência que combina charme, gastronomia e paisagens inesquecíveis.
Entre quintas históricas, hotéis com alma e refeições inesquecíveis, este roteiro é feito de pausas contemplativas, conversas com quem preserva tradições e momentos de indulgência. Siga-nos numa viagem que começa em Valença do Douro e termina em Gaia, provando que o Douro é mais do que vinho: é uma forma de viver o tempo e a paisagem portuguesa.
1. Almoçar na Quinta do Panascal (depois de uma visita imersiva)

Em Valença do Douro, no Vale do Távora, esta boutique winery é uma alternativa perfeita às visitas e provas mais massificadas. Aqui, respira-se com vagar o silêncio e a essência duriense. A nossa proposta é que faça uma visita às vinhas. Pode fazê-lo sozinho, com recurso a audioguia, ou com guia, num percurso de cerca de 30 minutos. É uma experiência imersiva, que começa logo à entrada e acaba no lagar.
Ali não muito longe fica o Mosteiro de São Pedro das Águias, que faz parte da rota cisterciense em Portugal. E terão sido precisamente os monges cistercienses que, no século XII, trouxeram a cultura do vinho para a região, embora exista documentação de que a presença de vinhas na região remonta aos tempos antes de Cristo.

A Quinta do Panascal, propriedade da Fonseca, atravessa duas regiões vinícolas, Douro e Távora-Varosa. As vinhas que visitámos remontam ao início do século XX e representam o património genético da casa fundada em 1815, que já conquistou, com quatro vinhos, 100 pontos da prestigiada publicação especializada Wine Spectator.
Há várias modalidades e preços de visita com degustação de vinhos do Porto, que começam no Classic (15€ por pessoa) e vão até ao Signature (60€ por pessoa). É possível também acompanhar a prova com enchidos, queijos ou uma prova de azeite.
O pináculo desta experiência, que a TRAVEL MAGG teve oportunidade de desfrutar, é mesmo o almoço na quinta, que requer marcação prévia, e é cozinhado com amor pelas funcionárias da Quinta do Panascal, que contam com 40 anos de casa. Não há menus, uma vez que não se trata de um restaurante mas sim de “uma experiência verdadeiramente portuguesa”, como nos explicou Paulo Santos, general manager do Vintage House Hotel (onde pernoitámos).
Os preços dos menus começam nos 48€ por pessoa e incluem entrada, prato principal, sobremesa e bebidas (e os vinhos da casa, claro). Desde o consensual arroz de pato até aos rojões à Panascal, passando pelo bacalhau assado com batata a murro e legumes, há muitas e boas opções. Mas ir ao Panascal e não comer o fabuloso cabrito assado a desfazer-se do osso, com batatinhas macias, é (quase) imperdoável. Para a sobremesa, recomendamos o leite-creme queimado, um clássico intemporal que aconchega o mais empedernido dos corações.

A casa da Quinta do Panascal está preparada para receber grupos até 44 pessoas. As refeições são gratuitas para crianças até aos 4 anos e dos 5 aos 12 anos pagam 50% do valor. As reservas antecipadas são obrigatórias assim como é obrigatório visitar a Quinta do Panascal para viver, desde o olfacto ao paladar, o Douro com cinco sentidos.
2. Dormir na The Manor House Celeirós (e jantar na Casa das Pipas)
A mais recente unidade hoteleira do grupo Fladgate é uma visita obrigatória se quer experienciar um local único antes que se torne moda. No centro da na povoação de Celeirós do Douro, a The Manor House Celeirós já existia anteriormente como alojamento local e foram feitas algumas melhorias, mantendo a decoração tradicional mas retirando algum excesso de mobiliário.
Além de quartos na casa principal, é possível pernoitar na Casa do Lagar, onde foram acrescentados mais três quartos além dos quatro que já existiam. No total, a propriedade tem 19 unidades de alojamento, e uma piscina que é o centro da vida na The Manor House Celeirós quando o calor aperta. Quando o tempo está frio, é possível descansar nos vários espaços comuns, ou ir beber um copo (ou vários) à Casa das Pipas. O restaurante, um espaço enorme e com vista para a propriedade, irá em breve ter um bar logo à entrada. O objetivo é tornar a Casa das Pipas independente e apelativa ao público que não se encontra alojado na The Manor House Celeirós.
E é aqui que o chef Milton Ferreira, de 35 anos, demonstra não só o seu talento como o amor à região, combinado técnicas clássicas com produtos locais. “Sempre acreditei e acredito no potencial da região. Tem muito para dar”, explicou o responsável pelas cozinhas do Casa das Pipas e do Rabelo, restaurante do The Vintage House Hotel. Sem pratos à carta, o restaurante oferece dois menus. O primeiro, de cinco momentos, tem o valor de 60€ (85€ com harmonização de vinhos) O Menu Identidade do Chef, com 8 momentos, tem o valor de 100€ (125€ com harmonização de vinhos).

No Casal de Celeirós Visitor’s Centre, onde se encontra a adega da Quinta do Portal, é possível fazer provas de vinhos e adquiri-los no local. A The Manor House Celeirós está encerrada até 25 de dezembro. Reabre de 26 de dezembro a 6 de janeiro, encerrando novamente até 26 de fevereiro. O restaurante Casa das Pipas está aberto todos os dias, ao almoço e ao jantar.
The Manor House Celeirós
3. Visitar a Quinta da Roêda (e fazer um piquenique no meio das vinhas)

De Celeirós, seguimos para um dos destinos mais fotografados do Douro, o Pinhão. E a instagramabilidade da localidade duriense devem-se não só aos socalcos onde crescem as vinhas mas também à ponte de ferro, projetada por Gustave Eiffel. A infraestrutura de 103 anos liga o Pinhão a São João da Pesqueira e é um dos pontos de atracção de quem visita esta zona. É também do lado do Pinhão que fica a Quinta da Roêda, propriedade da Croft e uma das mais visitadas da região, com uma média de 400 a 500 visitantes na época de Verão.
O centro de visitas está situado num antigo estábulo e é ali que se fazem as provas quando o tempo não está favorável (ou quando são grupos grandes). Cá fora, 109 hectares, 7o dos quais ocupados por vinhas, esperam um passeio, de preferência com um chapéu tipicamente duriense, feito com a palha que sobrava da ceifa dos cereais.

A Quinta da Roêda disponibiliza visitas guiadas com várias provas de vinho do Porto, com preços entre 20€ e 59,50€ por pessoa, consoante a seleção de vinhos, que vai desde introduções à marca até experiências para conhecedores. Há ainda uma visita autoguiada a 11€ (ou 27€ com prova) e visitas privadas para grupos, entre 125€ e 175€, às quais se pode acrescentar qualquer uma das provas listadas na oferta.

No século XIX, o poeta Vega Cabral escrevia: “Se o Douro é considerado o anel de ouro de Portugal, a Quinta da Roêda é o seu diamante”. Longe de nós estar a dar sugestões mas uma das experiências mais especiais que se pode fazer nesta quinta é perfeita para tirar do bolso um outro diamante. Quer seja para um pedido de casamento ou apenas para uma tarde romântica, um piquenique no meio do vinhedo, com um cesto tradicional, é perfeito para viver a Roêda com calma, contemplação e, claro, copo na mão. Os preços começam nos 45€ por pessoa (Cesto Clássico) e vão até aos 82€ (Cesto Premium para duas pessoas). Há também uma opção de cesto vegetariano (42€ por pessoa). As reservas têm de ser feitas com 24 horas de antecedência, no mínimo.
4. Dormir no Vintage House Hotel (depois de jantar no Rabelo)
A noite no Vintage House Hotel começa muito antes de subir ao quarto: começa no prato. No Rabelo, restaurante do hotel, o chef Milton Ferreira trabalha a cozinha duriense com uma subtileza que não abdica das raízes. A vieira com texturas de tupinambor e caldo de moscatel prepara o palato para o prato mais pedido da carta, o rabo de boi, onde o frango do campo, os legumes da estação e a pera cozinhada em açafrão se encontram numa harmonização que reflete toda a base emocional que o chef insiste em preservar. A ganache de chocolate com fava tonka encerra o jantar como um lembrete de que a experiência, para esta equipa, não deve ser apressada. É um trabalho que Milton, com passagens por Hong Kong, Canadá e Espanha, descreve como “uma evolução constante, assente na identidade da região”.

É esse mesmo sentido de identidade que encontra no hotel, inaugurado em 1998 numa antiga zona de armazéns e hoje com 47 quartos e suítes moldados à luz do Douro. A decoração clássica, pensada pelos proprietários, abraça materiais quentes, madeiras escuras e tecidos que fazem lembrar casas senhoriais. As tipologias dividem-se entre diferentes vistas, mas são apenas três os quartos voltados para a encosta, reservados para motoristas e guias. Para os hóspedes, o Douro entra pela janela: acorda-se com o rio a espelhar a luz da manhã e a ponte do Pinhão enquadrada como se fosse parte do quarto.

O hotel teve várias vidas, passou por várias mãos, até ser adquirido pela Fladgate Partnership em 2015. Foram acrescentados mais três quartos e consolidada a vocação de hotel de charme procurado sobretudo por portugueses, americanos e ingleses, muitos deles integrados em grupos. Mas nada disso interfere com o ambiente tranquilo que se vive nos jardins, pensados para abrandar o ritmo. Ali, o som das folhas mistura-se com o murmúrio do rio, criando uma espécie de pausa natural entre o jantar e o resto da estadia.
Nos dias de maior calor, a piscina exterior torna-se o coração do hotel, rodeada pelos socalcos que lembram, a cada olhar, onde estamos. Depois do jantar, e antes de regressar ao quarto, vale sempre um desvio ao Bar Library, onde cocktails discretos e vinhos durienses se servem ao lado de uma lareira nos meses frios ou num terraço solarengo nos meses quentes. É este contraste – entre o clássico e o luminoso, o gastronómico e o descontraído, o rio e a sala – que faz do Vintage House um lugar onde se dorme, sim, mas sobretudo onde se permanece. Uma noite do Vintage House Hotel começa nos 201€ em quarto standard com vista para o rio Douro
5. Terminar com uma massagem vínica no The Yeatman Wine Spa
Joia da coroa do grupo Fladgate e um dos melhores hotéis de Portugal, o The Yeatman celebrou quinze anos em setembro de 2025, mantendo-se um ícone de luxo e experiência vínica no Porto. O seu Wine Spa, redesenhado em 2023, reflete este espírito: desde as salas revestidas a tons quentes que evocam barricas até aos tratamentos inspirados nas vinhas, com extratos de vinho e grainhas de uva. Mesmo sem pernoitar no hotel, é possível aceder ao circuito de bem-estar, com piscina interior e ginásio, e experimentar esta imersão relaxante.

O acesso ao spa está disponível em dois períodos: manhã, das 10h às 14h, por 48€, e tarde, das 14h às 19h, por 75€, ambos com duração de 90 minutos, mediante reserva prévia. O circuito inclui sauna tradicional e de infra-vermelhos, banho turco, fonte de gelo, haloterapia, banho romano, camas de pedra aquecidas e duche experiencial, com roupão e toalhas fornecidos nos cacifos. A piscina exterior mantém-se exclusiva para hóspedes, e cada grupo pode ter até 10 pessoas.
O destaque vai para os rituais vínicos: o Ritual de Assinatura The Yeatman, com 105 minutos e 260€, combina banho de barril, esfoliação e massagem corporal, proporcionando vitalidade e bem-estar; já o Ritual Romântico, para duas pessoas, dura 75 minutos e custa 390€, criando um momento partilhado único.
Para uma experiência de dia completo, os programas Day Retreat e Day Retreat Premium oferecem acesso prolongado à área de bem-estar, massagens, chá ou almoço leve e estacionamento incluído. O primeiro, por 155€, inclui 30 minutos de massagem e 90 minutos no spa com Sparkling Afternoon Tea no Dick’s Bar & Bistro; o segundo, por 265€, prolonga a massagem para 50 minutos, adiciona massagem cranial ou facial e almoço no The Orangerie. O fim perfeito para três dias de sonho no anel de ouro de Portugal.

















