Andreia Castro não é uma médica qualquer. É uma médica que viaja. E que decidiu usar o que aprendeu nas urgências e nas viagens — de Paris ao Japão, das Caraíbas a Londres — para fundar, em 2019, a Consulta do Viajante Online, um serviço criado a pensar em quem vai sair do país e não quer levar apenas o passaporte e o protetor solar: quer também informação médica verdadeira, útil e atualizada sobre os riscos de saúde no destino.
Formada em Medicina Geral e Familiar, com pós-graduações em saúde mental e medicina estética, Andreia acumulou uma década de experiência em contexto de urgência e centros de saúde. Ao mesmo tempo, fazia Erasmus, trabalhava em cruzeiros, vivia no estrangeiro e conhecia, em primeira mão, os desafios de manter a saúde em viagens longas e exóticas. Foi ao perceber que as consultas tradicionais do viajante eram demasiado teóricas e distantes da realidade de quem efetivamente viaja que decidiu criar o seu próprio serviço — com um critério claro: todos os médicos que integram a sua equipa são também viajantes experientes. “É isso que enriquece o nosso trabalho. É o nosso selo de qualidade.”
A importância de uma consulta médica antes de viajar
A Consulta do Viajante não é um luxo, nem um exagero. É uma avaliação personalizada — médica, sim, mas também prática — sobre o destino da viagem, o tipo de atividade, o perfil do viajante, as suas doenças pré-existentes, vacinas feitas ou em falta e riscos específicos do percurso. “Uma viagem para o Rio de Janeiro não tem nada a ver com uma viagem para a Amazónia”, salienta Andreia Castro.
A partir dessa análise, os médicos aconselham sobre prevenção de doenças, sintomas a que deve estar atento, possíveis medicações de SOS ou preventivas (como antimaláricos ou tratamentos para altitude) e vacinas — se forem necessárias. Não há receitas standard: uma viagem curta pode exigir cuidados diferentes de uma viagem de um mês. Uma criança, um idoso ou uma grávida vão ter indicações distintas. Nem todas as consultas resultam em vacinação — mas todas resultam em informação útil e adaptada.
Andreia Castro
Um resort não o protege de tudo (e as redes sociais também não)
Um dos temas mais sensíveis que Andreia abordou, em conversa com a TRAVEL MAGG, é a ilusão de segurança que muitos viajantes têm. Quando se vai para um resort de cinco estrelas em Samaná, Zanzibar, México ou Cabo Verde, a tendência é achar que se está imune aos riscos — sobretudo porque ninguém avisa do contrário. “Um mosquito à porta do hotel não lê um painel a dizer mosquito não entra aqui.”
As agências de viagem, diz Andreia, muitas vezes desvalorizam a consulta médica por não ser obrigatória. Isso faz com que muitos viajantes embarquem sem saber, por exemplo, que há surtos de cólera em Angola ou de dengue em Cabo Verde, ou que a malária, embora não obrigue a vacinação, continua a ser potencialmente fatal. “Quando dizemos a um viajante que não precisa de uma consulta médica só porque não há vacinas obrigatórias, estamos a ser irresponsáveis”, alerta a médica.
Também as redes sociais têm a sua quota-parte de culpa, uma vez que alguns viajantes partilham apenas o que corre bem. “Tenho bloggers que apanharam malária e não dizem nada porque não é ‘fixe’”, revela Andreia. A realidade, porém, é outra. “Ninguém vai para o Instagram dizer que esteve quatro dias com diarreia sem sair da casa de banho do hotel.”, salienta a especialista.
Jet lag, altitude e outras complicações inesperadas
A medicina do viajante é mais ampla do que a maioria imagina. Não se trata apenas de evitar picadas de mosquito ou comer bem. Há consultas específicas para quem sofre com jet lag (essencial para quem viaja por poucos dias em trabalho, por exemplo), para diabéticos (pela gestão da insulina com a diferença horária), para quem planeia fazer trilhos, mergulho ou voluntariado. Há mesmo consultas focadas em infecções sexualmente transmissíveis, como detalhou Andreia Castro. “As pessoas associam isto a água, gelo e vacinas. E é o mais errado que podia ser.”
A altitude é outro tema crítico, muitas vezes ignorado, explica Andreia Castro, recordando a morte trágica de Juliana Marins, jovem brasileira de 24 anos que morreu em junho, depois de desparecer enquanto fazia um trilho no vulcão Rinjani, na Indonésia. “Ela estava a 3000 e muitos metros de altitude. Isso interfere no raciocínio”, comenta a médica, explicando ainda que a desorientação provocada pela altitude pode ser fatal — e evitável com a preparação certa.
Dicas práticas que fazem a diferença
Andreia Castro recomenda que todos os viajantes levem um kit básico, especialmente se partem para zonas tropicais ou com risco sanitário. Eis os essenciais:
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Antipirético (paracetamol)
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Antidiarreico
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Sais de hidratação
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Pomada para picada de mosquito
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Repelente eficaz (não pulseiras)
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Antialérgico oral
Também aconselha a contratação de um seguro de viagem — sempre e em qualquer tipo de viagem. E que se leia a apólice, especialmente se a viagem envolve trilhos, desportos ou mergulho. A médica recorda que esta medida já salvou pessoas com seguros bem feitos e viu outras gastarem milhares por não estarem cobertas. “Uma coisa simples nos Estados Unidos são logo milhares de dólares.”
Outro conselho fundamental? Registar-se na aplicação Registo Viajante, do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que permite a evacuação em caso de catástrofe ou guerra.
Para Andreia Castro, não há destinos proibidos, desde que haja preparação e vigilância. “Com prevenção e informação, cada vez faz menos sentido dizer às pessoas que não devem ir.” Até países com má fama, como a Namíbia, podem ser bastante seguros — desde que se saiba o que fazer. “Eu não me revejo em desaconselhar alguém a ir a um destino, a menos que haja um motivo muito marcado para isso.”, salienta.
Perguntas e respostas essenciais sobre a Consulta do Viajante
1. O que é a Consulta do Viajante Online?
É um serviço médico personalizado que prepara o viajante para riscos de saúde específicos do destino, do percurso e do seu perfil clínico. Pode incluir vacinação, medicação preventiva e aconselhamento detalhado.
2. Todos os médicos da equipa têm formação em medicina do viajante?
Sim. Além disso, são também viajantes experientes, o que garante uma abordagem prática e realista.
3. Quem deve fazer esta consulta?
Qualquer pessoa que vá viajar para fora da Europa, em especial para África (sub-Saariana), Ásia, América do Sul e Central, ou Caraíbas. Também é recomendada para quem vai fazer trilhos, campismo, voluntariado, mergulho ou viagens com crianças.
4. Quando deve ser feita a consulta?
Idealmente entre quatro a seis semanas antes da viagem. Ainda assim, mesmo uma consulta na véspera pode fornecer informação importante.
5. A consulta é só para vacinas?
Não. Pode incluir prevenção de doenças como malária, orientação sobre altitude, jet lag, doenças sexualmente transmissíveis, diarreias graves e muito mais.
6. Que doenças são muitas vezes ignoradas mas perigosas?
Malária, dengue, cólera, raiva e doenças transmitidas por mosquitos ou contacto com animais, mesmo em resorts de luxo.
6. O que deve levar na mala, além da roupa e passaporte?
Um pequeno kit com antipirético (paracetamol), antidiarreico, sais de hidratação, repelente eficaz, pomada para picadas de mosquito e antialérgico oral.
7. O seguro de viagem é mesmo preciso?
Sim. Sempre. E deve ler bem as condições da apólice para garantir que está coberto para o tipo de viagem e atividades planeadas.
8. O que é o Registo Viajante?
É uma aplicação oficial do Governo português, que permite às autoridades localizarem os cidadãos em caso de emergência, guerra ou catástrofe no estrangeiro.







